Talvez das obras mais marcantes que li nos últimos tempos.
Uma narrativa extremamente fluída, com momentos mais vertiginosos e outros mais calmos.
Uma obra que consegue quase, que na primeira pessoa, levar-nos a estar presentes em todo aquele inferno.
Artie Spiegelman, através de toda a informação recolhida consegue com grande impacto manter vivas e dinâmicas todas as memórias de seu Pai.
Vladek e Anja tal como milhares de famílias são envolvidos no holocausto de uma forma bárbara.
Art consegue, e muito bem, envolver-nos em toda a trama. Muito inteligentes e propositadas, as suas paragens pelos mais variados motivos, que nos tiram das memórias, e nos reporta para a atualidade para depois retomar. Muito bom todo esse entrelaçar de narrativas.
Um traço sempre coerente ao longo de todos os capítulos, que tiveram alguns anos de diferença desde o primeiro. Um traço sempre com o mesmo equilíbrio.
Umas vezes acelera, dando fortes vincos e cor no traço, com onomatopeias muito simples e eficazes.
Vinhetas em que quase sentimos o cheiro dos campos de concentração e a dor da fome....
Talvez por se tratar de relatos na primeira pessoa há uma noção muito clara dos sentimentos de todos.
A fragilidade da mãe Anja, obviamente muito marcada por todos os acontecimentos. O mau ambiente vivido em casa de Vladek com a sua segunda esposa a Mala. Mentalidades muito opostas com algumas desconfianças, mas que no fim percebem que não podem viver um sem o outro. Típico em vários casais. Ele, sempre desconfiado da honestidade e das verdadeiras intenções, e Mala, cansada de aturar os juízos, os desequilíbrios face aos orçamentos familiares e também da própria doença. Claramente efeitos da guerra.
Todos os enredos muito bem relatados de forma simples e completa, que nos conseguem dar uma ideia clara do dia-a-dia daquela família.
O antropomorfismo tem um peso e conotação muito fortes, talvez seja até essa a grande arte nesta obra.
A relação da imagem dos judeus como ratos, fracos e indefesos dos nazis como gatos, sempre em plena caça, dos americanos, cães valentes, pouco amistosos com os gatos...... Entre outros. Pedra de toque na obra.
Maus é de leitura obrigatória. É das obras que quando acaba, nos incita a recomeçar, a conhecê-la melhor. Profundamente. A percorrer de novo, inquietos, os meandros da sua sombria beleza.
Obra que dá vontade de falar e expressar sentimento e obviamente,... de reler.