Penso que nos dias de hoje
podemos considerar quatro grandes universos da 9ª arte.
Comics, Novelas Gráficas,
Franco-Belga e Manga. Quatro ambientes completamente distintos na sua origem
mas que por vezes conseguem fazer um cruzamento ou experimentar simbioses. A verdade é que o mercado é o melhor, ou talvez o único motor que pode dar mostras da aceitação ou credibilidade, tanto das artes nos seus ambientes originais, como nos experimentalismos ou simbioses.
Há dois mercados verdadeiramente vincados e mais que explorados nestes universos, o Franco-Belga e Comics, aos quais se junta o Manga e as Novelas Gráficas mais tarde.
Como perceber as flutuações de gostos dos leitores?
Como perceber as correntes e as modas sazonais?
Como perceber como se consome e porque se consome de determinada forma?
O que justifica os consumos?
O que mais se procura e porquê?
Há intemporalidade das artes?
Obviamente que há, no mercado, os seguidores e puristas de cada uma das correntes já atrás mencionadas. Há os grandes consumidores e colecionadores de cada uma das artes.
Grandes especialistas e conhecedores de cada uma delas. Seguidores e apaixonados de culto. Sem dúvida.
Há os que, gostando da arte no geral, consomem um pouco de tudo.
Seja por seguir determinado autor, trabalhe ele na área que trabalhar.
Há os que seguem determinado tipo de traço, argumento, cor, serie, personagem, herói, etc.
Agora mais concretamente o nosso mercado nacional? Esse sim, aquele que pretendo descodificar, interpretar, melhor conhecer e perceber?
Actualmente parece ser um mercado confuso. Muito partido e sem um fio condutor para o leitor mais generalista. Há um consumismo misto. Um pouco de tudo, mas com grandes desequilíbrios.
Parece um mercado de modas, e acima de tudo, ter de consumir o que o mercado tem disponivel.
Vejamos, se em tempos o mercado era mais limitado e o que nos aparecia eram as revistas semanais, era então o que se conhecia e consumia. Na certeza que essas revistas traziam muita divulgação e davam oportunidade a autores portugueses de terem trabalho relacionado com a área. É uma das falhas actuais do nosso mercado, o facto de não haver uma revista semanal a trabalhar este universo.
Dessa época resultaram os grandes amantes, autores, seguidores, conhecedores e colecionadores, acima de tudo de material Franco-Belga. Era o que mais facilmente se conseguia obter e consumir, logo seguido, de imediato dos leitores de Comics.
Surgem os anos 70/80 e 90 onde o Franco-Belga continua a vingar e um pouco de tudo aparecia no mercado.
A importação e o princípio da tradução de material americano começa a criar bases fortes e implantação estável no nosso mercado criando sectorização e seguidores absolutos.
O princípio do novo milénio foi também bastante importante. Apareceram novas editoras e novo material. Alguns projectos resultaram melhor que outros, verdade. Mas o que de certa forma era o mais importante aconteceu, que foi a edição. Surgem também as editoras independentes que dão lugar e oportunidade a novos autores e principalmente a autores português o que é muito importante, ambicioso e bom. Pois só assim conseguimos dar a conhecer o que de bom também temos por cá. Já que a falta da revista semanal, de certa forma poderia ajudar nesta área.
Actualmente o mercado deu uma volta muito grande.
No nosso mercado o Franco-Belga parece quase numa via em extinção…. Senão vejamos!
Quantos álbuns de Franco-Belga se edita por ano aqui no burgo? Falo em novidades?
Um Asterix, um Blake e Mortimer, um Michele Vailant, um Ric Hochet acidentalmente, um Manara ou um Miguelanxo Prado…
Há um mercado importante, actualmente, de edição de bons álbuns, sejam eles Novelas Gráficas, Fanco-Belgas e/ou material mais alternativo, muitas vezes arte de autor.
Embora muito desse material seja inédito no nosso pais, por vezes são obras já com alguns anos e continuamos a não ter um mercado de novidades.
Claro que é um trabalho muito importante e com um forte valor. Trata-se sempre de material que fez/ou faz história no palco mundial e que é sempre importante ter editado por cá. Muitas vezes algumas obras tem mais valor do que algumas novidades que estão atualmente no mercado, sem duvida e ainda bem que existe este projecto.
Será esta a nova forma de colocar material Franco-Belga por cá?
Mas seria preciso perceber se se trata de um projecto que pretende, num futuro, editar os autores por completo ou iremos ter só alguns auto-conclusivos, independentemente dos restantes trabalhos dos autores. Poderá este projecto no futuro e pela quantidade, conseguir consolidar obras completas de autores ou teremos sempre peças soltas? Poderemos contar com este projecto mais à frente e, qui ça, de repente editar uma serie completa e incrementar o Franco-Belga pelo nosso mercado?
Pergunto, há espaço para o nosso mercado se for inundado de Franco-Belga como é de Comics actualmente? Acredito que sim.
Quanto a Manga, imagino que a Portugal não chegue 1% do que se consume por terras Orientais. Mas é área que nada conheço mas penso ser dos quatro universos o menos consumido no nosso país, embora tenha verdadeiros seguidores de culto.
Novelas Gráficas aparecem, sim aparecem e é um tema que se consome bem, traduzido, ou não. Tem um potencial enorme.
Pois é uma área que aposta fortemente em argumentos muito sólidos e actuais. Argumentos que mexem connosco, dependendo dos argumentos, uns mais a uns que outros, mas de forma geral todos nós, leitores, encontramos Novelas Gráficas que nos marcam fortemente e somos bons consumidores.
Muitas vezes as Novelas Gráficas são confundidas com pequenas series muito boas que ajudam na sua expansão no mercado.
Existindo também editoras que apostam neste universo que tem vindo a ocupar um papel e fatia de mercado muito importante. Tanto na edição de series de culto como dos Auto conclusivos de grandes autores estrangeiros que de outra forma dificilmente teríamos editado por cá.
Finalmente os nossos Super-heróis que vivem tempos muito expressivos no nosso mercado. Hoje em dia aparece um pouco de tudo, com edições de grande qualidade que inundam as nossas bancas e enriquecem as prateleiras dos seus seguidores. Com a vantagem de que vem com os episódios bem arrumados, identificados e com pequenos textos que ajudam a contextualizar a obra nos respectivos universos.
Forma fantástica de ter coleções completas e organizadas. Um excelente chamariz. Pois de outra forma teríamos de nos socorrer das feiras ou alfarrabistas para tentar encontrar aquela revista que falta para completar determinado arco ou história e que poderia levar anos a encontrar.
Agora?...
Serão mesmo só seguidores ou haverá uma fatia que consome simplesmente porque;
É o que o mercado mais e melhor oferece?
É porque se trata de um público alvo menos conhecedor e por falta de conhecer Franco-Belga consome o que há no mercado?
É moda?
Oportunidade de quem investe?
Faltará no mercado quem perceba de Franco-Belga e o coloque no mercado tal como o Comics se implantou? Não me parece.
É o Comics a verdadeira fatia de consumo e gosto do nosso mercado?Também não acredito.
Se não, então, porque a falta do restante?
Havendo esta visível pendente da balança, haverá um empobrecimento dos consumidores de Franco-Belga?
Quando falo em empobrecimento, falo de consumo interno. Porque quem consome Franco-Belga não se limita ao nosso país, sabendo muito bem, como e onde adquirir.
Agora pergunto, não se consome Franco-Belga porque não há, ou não há porque não se consome?
Não pretendo de forma alguma valorizar nenhuma das correntes, mas sim tentar perceber a falta de homogeneidade das correntes no mercado nacional em geral e o porquê…
Existe uma corrente nacional que de certa forma parece parada temporalmente no que se refere à Banda Desenhada. Sou capaz de, até certa forma, perceber a necessidade de dar a conhecer esse legado que no fundo são as grandes bases para o que existe hoje. Mas com limites de actuação e divulgação. Há muito tempo perdido e potencial de divulgar muito mais e melhor.
Existiram grandes evoluções e mutações na arte gráfica e também na criação e composição de textos. Ficaram obviamente grandes obras feitas que é preciso não esquecer e que servem ainda hoje como fonte de inspiração e muitas vezes de curiosidade que trás de seguida um bichinho que já não sai.
Mas em certa medida isso pode ser um reverso e causador de uma certa fragilidade no que se refere à escola Franco-Belga. Imagino que um jovem de hoje vibre muito mais ao ver um Homem-Aranha ou Um Super-Homem, bem encadernado, nas banca, e novinho, do que um clássico de revista numa feira de antiguidades. Depois as grandes livrarias também, não tendo grande divulgação no que se refere a novidades, esse mesmo jovem volte por acabar a consumir novamente o material americano.
O mercado está bastante activo e é preciso perceber se o caminho é o correto, se não haverá perdas pela falta de investimento mais sério em algumas das correntes, pois há uma obrigação de tratamento e conhecimento da arte no geral para que o mercado invada o consumidor de forma equilibrada para todos.
Para que não se perca leitores por falta de material e nem se limite o conhecimento de novos leitores tirando-lhes a possibilidade de mais conhecer e validar os seus gostos e evoluções no consumo da Banda desenhada!

Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderEliminarTexto bem elaborado e demonstrativo da realidade nacional. Mas gostaria de saber onde, na tua opinião se enquadram as obras de autor?
ResponderEliminarE parabéns por esta iniciativa.
Muito obrigado pelas considerações ao texto.
ResponderEliminarNa minha opinião as obras de autor existem em todas as correntes. Falamos é de obras que fogem ao ritmo infernal de uma obrigatoriedade de criação de álbuns em serie. Onde as personagens são desenhadas por vários autores que, a meu ver retiram um pouco a identidade dos personagens.Obviamente mais vincado e claro na corrente Franco-Belga. É claro que a fronteira é muito vaga. Pois temos grandes series que são pertença de um único autor que são obviamente obras de autor, mas temos series com grandes variações de autores. Blake e Mortimer, por exemplo, já foi obra de autor, hoje não. Jonathan, é uma obra de autor.